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Anos depois

Luis Fernando Verissimo

12 de março de 1930. Lançamento da pedra fundamental do prédio, contendo uma caixa de aço com diversos objetos dentro. A escolha dos objetos foi feita para os que demolirem o prédio no futuro e descobrirem a caixa de aço saberem o grau de avanço intelectual e tecnológico dos que o construíram. Há um telefone, uma câmara fotográfica e livros contendo pensamentos dos mais importantes líderes e filósofos contemporâneos, além de jornais e revistas da época. Um dos oradores do evento comenta o significado daquela cerimônia, daquela mensagem sendo mandada de uma geração para outra através do tempo, e especula sobre como será o mundo quando a caixa for aberta dali a cem, duzentos, trezentos anos...

18 de outubro de 2190. O prédio acaba de ser demolido e descobrem a caixa de aço. Os palpites sobre cada um dos objetos dentro da caixa variam. Aquela coisa com números em círculo na frente só pode ser um jogo de criança, talvez um método primitivo de ensinar matemática. A caixa preta com manivela será algum utensilio de cozinha? Mas o que todos estranharam mesmo são os livros, Mein Kempf e os outros, e os jornais e as revistas. São obviamente textos para leitura, mas que modo mais rude e incômodo de apresenta-los. Como era possível uma geração que já sabia fazer edifícios ainda imprimir coisas em papel?


17 de março de 1955. Pátio da escola.
- Passa a bola, ó Baleia.
- Baleia não!
- Baleia! Molóide! Não viu que eu estava livre?
- Eu tenho um problema orgânico, quer saber?
- Problema orgânico um pivica. Tu é ruim mesmo.
- Posso trazer um atestado médico.
- E eu lá quero ver atestado médico? Eu não quero é te ver no meu time, Baleia!
- Baleia não!
- Ah, é? Não gostou? Vai encará, Baleia?
- O médico me proibiu de brigar.
- Teu problema orgânico eu sei qual é. Tu é veado.
- Não sou.
- Quem diz que não é, é porque é.
Exatamente trinta anos depois. A sala de um diretor empresarial.
- Eu estive examinando o seu currículo e fiquei bem impressionado.
- Obrigado, eu...
- Você tem todos os requisitos para trabalhar conosco.
- Ótimo.
- E, ainda por cima, fomos colegas de escola.
- O quê? Eu não estou me lembrando...
- Eu era um pouco mais gordo, na época. Um problema orgânico.
- Ora, veja só...
- Você não mudou muito. Lembra dos jogos de futebol no pátio da escola?
- Lembro, lembro. Aliás, uma vez, nós quase...
- O quê?
- Brigamos? Não foi?
- Eu não me lembro.
- Ah, bom. Melhor assim. Então, quando eu posso começar?
- Olhe... Seu currículo é ótimo, você tem todos os requisitos para o cargo, mas...
- Mas?
- Não sei se eu quero te ver no meu time.


12 de maio de 1997. Cama.
- Isto nunca vai acabar, vai?
- Nunca. Amor como o nosso só cresce. Todos os dias. Cada vez mais. Nunca acaba. É eterno.
- Você jura, Neneco?
- Juro, Neneca. Você vai ver.

21 de novembro, 2005. Escritório de advogado.
- Vocês têm que se encontrar para tratar do divórcio.
- Se enxergar a cara dele de novo, eu vomito.


Domingo, 20 de agosto de 2006.



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